CAPÍTULO 1
No Vale, o Meu Lar
Numa noite de verão, há muitos anos, três membros da nossa família, papai, meu irmão Cecil, de cinco anos e eu, criança de dois anos, desembarcamos do trem em Wallingford, Vermont. Na plataforma, tudo escuro. Apenas a luz vacilante de uma lanterna, segura por um homem alto que eu não conhecia, rompia o manto negro que envolvia o mundo. A cena inusitada ficou tão vivamente impressa na minha memória que jamais se apagará ou se ofuscará, enquanto eu viver.
O homem alto tomou a minha, na sua mão enorme e forte, como a do meu pai, a qual estava quente e parecia ser própria para conduzir crianças através de terrenos irregulares. Com papai conduzindo Cecil, lá nos fomos, rua acima, num séquito silencioso cuja solenidade se pronunciava pela escuridão da noite. Aquele homem alto era meu avô.
Na primeira esquina tomamos para o norte, cruzamos a rua e vovô abriu um portão. Entramos, todos, num átrio. Quando nos aproximamos do alpendre da casa, aparentemente confortável, a porta se abriu e apareceu uma velhinha de olhos escuros com lampião de querosene erguido acima da cabeça. Era a mãe de meu pai e estava para ser a minha, também. Vovó pesava precisamente quarenta quilos e quatrocentos gramas. Nem mais, nem menos. Dizem que as coisas mais preciosas vêm embaladas em volumes pequenos. Pois vovó era, no volume e de fato, uma criatura preciosa.
Ela saudou o filho e os dois netos, emocionada, mas silenciosamente. Reunimo-nos na sala de jantar e ela e papai puseram-se a conversar. Não sei do que falavam, mas ainda a vejo em colóquio através da névoa que os setenta anos passados acumularam na minha memória.
Passado algum tempo, vovó levantou-se ágil e entrou numa despensa espaçosa (ela dizia adega), contígua à sala de jantar, e voltou com três tigelas de barro, amarelas. Uma maior para meu pai e duas menores para Cecil e para mim. Trouxe, também, um pão generosamente bojudo e dotado de virtudes muito superiores as dos que eu, até então, provara. O pão trazia, como acompanhamento, uma jarra de leite fresquinho e doce, oriundo do úbere dadivoso de alguma representante da benemérita família das vacas, que, em breve, eu iria conhecer. Ah! Ia me esquecendo daquele prato cheio, amontoado, de amoras pretas, provindas daqueles arbustos retorcidos, que cresciam entre as pedras do morro e ofereciam, em triunfo, frutos saborosos, laboriosamente extraídos da terra pobre.
Três cadeiras foram chegadas à mesa. Uma bem alta, servidora de passadas gerações, evidentemente destinada a mim. E… começou o festim… Papai e vovó reencetaram a conversa, Cecil e eu comíamos avidamente e vovô, silencioso, assistia, comovido, à cena. Cecil e eu só pensávamos em anular o vazio dos nossos estômagos.
O relógio pendurado na parede norte, espantado com aquele desusado acontecimento, girava o seu esguio e longo ponteiro pelos números do mostrador e, de repente, atraiu a atenção de vovó. Como que assustada, ela levantou-se exclamando: Meu Deus, Pai Harris! São quase onze horas! O relógio, é óbvio, não se culpava pela distração. Sendo surdo e mudo nada mais podia fazer, para cumprir a sua finalidade, do que apontar o escoamento do tempo. Havia outro relógio pendurado sobre a lareira, na sala de estar contígua. Também era surdo mas não mudo. O melhor que o primeiro podia fazer para dar sinal audível do seu trabalho era emitir um inexpressivo tique-taque.
O segundo relógio podia fazer-se ouvir pela casa toda e o fazia sem hesitação, sempre que lhe competia. Trabalhando em perfeita harmonia com seu companheiro da sala de jantar, havia se manifestado a cada hora, durante aquele fortuito acontecimento.
A verdade era que vovó estava preocupada com a aflitiva dificuldade por que seu filho – meu pai – passava e com o peso dos problemas que recaíam sobre os seus ombros. Sob o comando dela, nós, os meninos fomos levados ao quarto que, a partir de então, passaria a ser o nosso.
Adentrando-o topamos com um objeto singular: uma coisa enorme com aparência de uma cama de barriga extremamente inchada. Vestidos com roupa limpa, de dormir, fomos levantados e lançados, carinhosamente, na majestosa pança daquela cama. Só recuperamos a consciência no dia seguinte, em dificuldades para fugir da situação de submersos nas ondas do colchão que, para nos esperar, fora reenchido de palha a fim de proporcionar-nos repouso e conforto até que viessem as noites frias de outono. Estas anunciariam a necessidade de substituir o enchimento dos colchões com penas macias de aves, que nos conservariam aquecidos durante as longas noites geladas, quando o vento hibernal sopra, uivando como uma alcateia de lobos.
Cabe-me explicar, as razões da ausência da personagem central da nossa família, minha mãe, nesse episódio em que perturbamos tanto a tranquilidade dos meus avós paternos. Fatores econômicos determinaram a divisão da nossa família. Em outras palavras, papai havia fracassado nos negócios e trazia-nos, os filhos homens ao refúgio da sua casa paterna, como era uso na época e ainda, é, nos períodos de extrema dificuldade. Como a nossa irmã Nina May, era ainda criança de colo, minha mãe achou que seria encargo muito pesado passá-la aos meus avós. Preferiu mantê-la consigo, arranjando-se como fosse possível, em Racine, uma cidade agradável, situada em praia do lago Michigan, onde todos nós, seus filhos, nascemos.
Meu pai recebera do econômico cidadão da Nova Inglaterra, meu avô Harris uma “drug-store” e uma casa. A excessiva tolerância do meu avô fizera do meu pai um homem incapaz de equilíbrio financeiro. Tendo tido começo tão fácil pareceu-lhe que o mundo jamais lhe exigiria trabalho e esforço. No começo as coisas foram bem, mas, como a gerência do estabelecimento era falha, meu avô aconselhou-o a liquidar o negócio e estabelecer-se em novas bases e mais próximo de Wallingford, onde fosse possível a sua assessoria na contabilidade, registrando, além da receita, as despesas. Até então, os livros estavam na maior desordem.
Todos os eventos acima, ao contrário do que meus parentes julgaram, mesmo incluindo a liquidação do estabelecimento do meu pai, foram extremamente benéficas para nós, os dois meninos. Cecil teve benefícios temporários e eu ganhei um lar bem equilibrado, permanente, caloroso, onde tudo era ordem e se respiravam altos ideais; onde a educação era considerada o benefício supremo.
Embora muitos dos Bryans considerassem bons os pontos de vista do meu avô Harris, eles optavam ao que tudo indica, por outra solução. Queriam que meu pai convertesse tudo o que restava em dinheiro e partisse, sozinho, sem a família, a procura de fortuna pela descoberta de ouro e pedras preciosas, como fizera o meu avô materno. Diga-se, a bem da verdade, no entanto, que foi o meu laborioso avô Harris quem atendeu os últimos dias de vovô Bryan, mais brilhante, mas imprevidente, e sua sacrificada esposa. E foi, ainda, ele quem, encorajado pela sua adorável e laboriosa companheira, Pamela Rustin Harris, cobriu com o manto da solidariedade as necessidades de todos os seus parentes e ainda hoje se encontra no cartório de Rutland Country o registro da cessão da renda de um remanescente das propriedades de minha avó, em testamento a um membro da nossa família.
Deve ter havido muita agitação e, mesmo, choro quando se rompeu a nossa família em Racine. É sempre lamentável a dissolução de uma família, mesmo que a decepção não alcance as proporções de um fracasso total. No nosso caso, fez-se tudo o que era possível por meus pais e, mesmo assim, eles fracassaram. O futuro não prometia nada. O único recurso foi contar com a acolhida e proteção dos meus avós Harris. Deve ter sido profundamente humilhante para meu pai o voltar à sua aldeia, vencido e desesperançado.
Papai, Cecil e eu éramos como que a vanguarda dos refugiados. Os outros membros da família vieram a Vermont após serem concluídas as condições mínimas necessárias para recebê-los.
Esses incidentes estavam muito acima da minha compreensão, como também da de Cecil, portanto nenhuma preocupação nos torturava. Alimentados, vestidos, abrigados com conforto e livres para as nossas traquinagens, estávamos no que poderíamos ter pedido a Deus.
Tínhamos o nosso lar. Devo, agora, embora ainda com certa vergonha, relatar um fato que diz mal da minha compreensão infantil. Minha avó, que desde a nossa chegada dava mostra de ser a comandante-em-chefe da casa, fê-lo ocorrer, quando amarrava os cordões do meu sapato. Eu, porém, não percebera e, deseducadamente, neguei-me a obedecer uma das suas ordens. Ela mandou que eu levantasse o pé e eu rebelei-me respondendo autoritariamente: “Você não manda em mim! Não é minha mãe!” Ela não vacilou. Chamou, de imediato, meu pai que, num instante acertou tudo com efeitos permanentes: nunca mais contestei a autoridade daquela velhinha que, afinal, dirigia tudo com rara proficiência e suavidade.
Cecil e eu passamos a descobrir as maravilhas da nossa nova casa. O que eu descobri com a passar dos dias, dos meses, dos anos… O leitor verá nas páginas seguintes.
Logo que chegamos em Wallingford minha avó percebeu que as roupas que estávamos usando não eram próprias para a vida que teríamos. A costureira da família, Margaret Mc Connell, entrou, de imediato, em cena. Margaret era a personificação da paciência. Do contrário jamais teria possibilidade de sucesso na confecção de vestuário para dois meninos incapazes de permanecerem quietos para as operações de tomar medidas e de provar as roupas.
A indumentária cotidiana para o verão compunha-se de camisa e calças. Estas não eram nem curtas nem compridas. Passavam abaixo dos joelhos o quanto permitia a disponibilidade de tecido. E a filosofia era a de que se as roupas não servissem para uso imediato, serviriam para o ano seguinte, quando as nossas pernas estivessem mais compridas. A meio da canela era o comprimento ideal: altas o suficiente para podermos andar na lama sem sujá-las e bastante compridas para obedecer a moda daquele ensacadinho das joelheiras. Ofereceria, também, recurso para a ocorrência da necessidade de aproveitamento das calças, num futuro próximo, em caso de modificações anatômicas do nosso corpo. Por aí se vê que a costureira era dotada de grande dose de visão profética. Nesse particular ela fracassou uma só vez. Foi numa ocasião excepcional em que tanto o comprimento como o volume das minhas pernas tomaram um ritmo desusado de crescimento. Consegui, a muito custo, entrar nas roupas recém-confeccionadas. Para sair delas, quase que foi necessário o uso de saca-rolhas.
Fazia parte das nossas roupas de verão, além da camisa e das calças já citadas, um chapéu de palha de abas largas. Calçados não usávamos e nem eram necessários. Tenho pena dos meninos que jamais gozaram a alegria de patinhar na lama dos charcos, ou sentir a frescura da grama molhada par entre os dedos dos pés, nas manhãs frescas e orvalhadas. Vovó reconhecia as vantagens dos contatos diretos com a natureza e nos liberava das restrições da vida urbana. Todas as noites, é óbvio, tínhamos que lavar os pés em água morna antes de inseri-los sob as cobertas limpas e acolhedoras das nossas camas. Era um preço muito baixo a pagar pelo privilégio e satisfação imensa de andar descalço.
Whittier deveria sentir uma grande ternura por meninos que andavam descalços. Do contrário não escreveria:
Abençoados, vocês, homenzinhos
Meninos de pés descalços, De faces, ao sol, crestadas,
De calças arregaçadas
Assoviando. . . sem percalços. . .
(Blessings on thee, little man
Barefoot boy, with cheeks of tan,
With thy turned up pantaloons
And thy merry whistled tunes)
