CAPÍTULO 3
Nossa Casa de 14 Cômodos
Embora não fosse muito grande, a casa de meus avós tinha 14 cômodos, além das despensas, dos alpendres, que eram usados como depósitos, e um ático espaçoso. Dos 14 cômodos, apenas 7 tinham uso regular. Quatro eram destinados aos hóspedes, três dos quais eram raramente ocupados. O último destes, que eu saiba, nunca foi ocupado. A sala, ao lado sul, só era ocupada quando tínhamos visitas e a situada ao norte só foi aberta duas vezes durante os dezoito anos que vivi lá: a primeira vez quando parentes importantes lá estiveram em visita e a segunda, nos funerais de vovô.
A casa toda espelhava cuidado e ordem doméstica. A toalha de linho sempre impecável sobre a mesa, embora portasse alguns remendinhos muito caprichados, testemunhos mudos, mas eloquentes dos préstimos e do zelo da dona da casa. Sempre que vejo tais remendos sinto doridas saudades. São as pequenas mostras de dignidade e ordem que o tempo não apaga da memória de quem as viveu.
As casas, mesmo as mais solidamente construídas, podem ser destruídas pela tempestade, pelas enchentes ou pelo fogo, mas as recordações dos lares onde impera o amor são imperecíveis. Quando a gente recorda o distante passado, muito do que pareceu importante se desvanece na insignificância, enquanto que pequeninas coisas ressurgem, dominantes, a ponto de superar, na consciência, tudo o mais, em importância. Sacrifício, devoção, honra, verdade, sinceridade, amor são virtudes candentes das antigas famílias bem formadas.
A cozinha de vovó funcionava como um relógio. Como um motor bem regulado; como o coração de um ser humano. Ali era gerada a energia que controlava os afazeres domésticos. Era o centro, o cérebro da atividade e da vida da família.
Segunda-feira era um dia especialmente agitado. Todo o mecanismo doméstico entrava em atividade. Até vovô entrava na dança. Cabia-lhe conservar o fogo na intensidade própria, queimando lenha branca, de combustão rápida e alto poder calorífico. Respondia, também, pelo abastecimento ininterrupto do reservatório da água necessária às obrigações de Délia: lavagem da roupa, das panelas, das louças, etc. Aos sábados a água deveria manter-se em quantidade suficiente e morna para os nossos banhos. Água morna e limpa, sabão feito em casa e fogo brando sob a chaleira formavam a combinação imbatível na guerra contra a sujeira. A bomba, no poço da cozinha, não deixava faltar água limpa e fresca para todos os fins, inclusive para a bilha, que estava · sempre cheia.
A versatilidade da cozinha era notória: padaria, nos dias de fazer pão, fábrica de laticínios nos dias de bater manteiga e preparar o queijo, salamearia nos dias de fazer linguiça e defumar toucinho e carne; fábrica de doces quando se fazia compotas em latas, confeitaria quando ai se prepararam os bons-bocados e doces de massa, etc.
Nas épocas em que havia congestão de serviços, entrava-se a usar o departamento auxiliar, a cozinha de verão, onde, ordinariamente, se praticavam as fases mais grosseiras do serviço e eram depositadas todas as matérias primas para a cozinha, os produtos acabados e os utensílios, como vassouras, coberturas, embalagens diversas e outros. Apesar da discriminação de usos, que eu saiba, nunca houve o menor desentendimento ou ciúme entre as duas cozinhas.
Anexas às cozinhas havia duas despensas. A maior delas tinha um acesso pela sala de jantar para melhor funcionalidade. Nela se guardavam as louças do uso diário, utensílios da cozinha, ovos, outras muitas utilidades e três barricas: uma com farinha de trigo, outra com farinha de centeio e a terceira com açúcar. As porcelanas ficavam na sala de jantar. Na despensa menor conservavam-se o leite, frutas, carnes preparadas e os alimentos que exigiam ambiente mais frio para conservação. Ela era abrigada do sol e as acumulações de neve permaneciam por muito tempo pelo seu lado de fora.
Para vovó, a despensa maior era a despensa sul e a menor, a norte. Jamais pude compreender a razão dessa qualificação, pois ambas ficavam do lado norte da casa.
Para perfeita funcionalidade das suas variadas utilizações a cozinha tinha, anexas, três divisões de uma grande adega no subsolo as quais mantinham frescas, mesmo no verão, as frutas, os legumes e as sementes. Quando chegava o tempo do plantio, as sementes de batatas eram, primeiro, aquecidas ao sol antes de serem levadas à terra.
Havia, ainda outro mecanismo de refrigeração: uma caixa dotada de circulação contínua de água fria oriunda do poço. Nela era depositada a manteiga.
Os sitiantes de Vermont que possuíam cisternas (poças) em suas propriedades costumavam edificar, sobre elas galões onde se depositava o leite e manipulava os produtos dele derivados, tanto os para uso doméstico como os destinados à comercialização. Manteiga e ovos eram vendidos no armazém local. Às vezes, apenas trocados por outras mercadorias.
Essas edificações, excelentes abrigos nos dias de verão e calor excessivo, estavam impregnadas do perfume gostoso do leite e da manteiga frescos.
A água dessas cisternas era bombeada para cochos de madeira colocados no terreiro e nos celeiros onde os animais domésticos, inclusive os cavalos, que vinham suados dos serviços da lavoura podiam mitigar a sede e refrescar-se. Os modernos refrigeradores podem ser mais eficientes, mas jamais poderão disputar com as velhas cisternas rurais dos sítios montanheses de Vermont, em perfume e suavidade.
Naquele tempo eram as mulheres que faziam manteiga e queijo. Hoje essas delícias nos saem das fábricas, impessoais. O queijo verde de Vermont, chamado também, queijo com erva, alcançou invejável reputação em toda a Nova Inglaterra. Lembro do nosso queijeiro, Martin Wiliam, preparando, no pilão, a mistura verde para a massa do queijo. Eram folhas tenras de trevo que atenuavam o ardor do tempero. A indústria do queijo não durou muito em Vermont. Superou-a o famoso Herkimer, de New York, o qual, depois, rendeu-se a Visconsin, que se tornou o Estado do queijo na América do Norte.
Mais tarde vieram as fábricas de creme de leite e os sitiantes de Vermont passaram a entregar o leite, produto de seus sítios, a elas, trazendo de volta o soro para alimentar os porcos.
O creme era separado do leite, esfriado e embalado em latões. Estes, acondicionados em “containers” e despachados pelo trem seguiam para Boston e New York, onde chegavam antes da hora do desjejum matutino. Esta prática, com algumas alterações, ainda continua e continuará até que o transporte aéreo a mude. Os fazendeiros mais prósperos de Vermont têm os seus próprios separadores de creme, nos dias de hoje.
Comparada com muitas das casas da Nova Inglaterra, a nossa não pode ser considerada velha, mesmo agora que está completando 100 anos ou quase. Tem a mesma idade da cidade de Chicago, na qual as casas aparecem e desaparecem em curto espaço de tempo. A nossa casa está hoje tão sólida como quando foi construída. E se não ocorrerem circunstâncias perturbadoras, imprevisíveis, ela ainda durará até a consumação do século.
Quem passa de automóvel pela estrada Ethan Allen pode ler, fixo no imperecível telhado de ardósia, em alto relevo, o escudo com dois H. São as iniciais do meu avô e benfeitor, HOWWARD HARRIS. Hoje a casa é de propriedade de família distinta, R.C. Taft. Ela foi, nos tempos do meu avô, reconstruída devido a um incêndio ocorrido numa noite de Natal.
Dos tempos da reconstrução eu só soube que o carpinteiro, homem de muitas habilidades, aproveitou as horas de mau tempo em que não podia trabalhar na construção, fazendo dois pares de botas para o meu avô. A moda da época foi respeitada com os canos subindo à altura dos joelhos. O acabamento das botas era esmeradíssimo e o conforto que ofereciam, insuperável.
Essas botas leves, macias, cômodas, serviram-lhe por mais de quarenta anos. Eram usadas aos domingos e quando vovô viajava. Também em ocasiões especiais e, finalmente quando ele morreu os seus pés cansados foram confortavelmente envolvidos naquelas botas, arte de um carpinteiro versátil e caprichoso.
