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Rotary Club de Niterói Icaraí

Distrito 4751 – RJ (região norte) e ES – Brasil

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CAPÍTULO 9

As peculiaridades dos meus pais

 

As recordações que tenho de meu pai, durante o tempo que ele permaneceu em Wallingford, são vagas. Em raras ocasiões, às tardes de domingo, ele saia comigo em longos passeios. Nos dias úteis da semana íamos, com frequência às montanhas a procura de todas as variedades de amoras que lá existiam. Fomos, uma vez, pescar trutas. Grande aventura! Outra vez cedendo aos meus insistentes pedidos, levou-me ao “Tanque da Raposa” para ensinar-me a nadar. Até então, eu jamais entrara n’água e, em razão disso, a minha satisfação transformou-se em medo, quando senti o frio do líquido. Papai se impacientou e atirou-me, impensadamente, no tanque. Lembro-me que quando abri os olhos, dentro d’água, encontrei-me num estranho mundo verde e quando me pilhei em terra, a salvo, embrulhei-me rápido nas minhas roupas e nunca mais pedi a papai para ensinar-me a nadar. Também, nunca mais deixei de recordar, a cada vez que passava pelo local, a susto e o pavor que senti naquela ocasião, agravados pelo desgosto visível de papai que, em outras circunstâncias, era um esplêndido companheiro.

Mais tarde, em companhia mais livre, aprendi a mergulhar nas verdes águas e sentir o prazer de estar plenamente à vontade, nadando. E, ainda mais, certo de que, com exceção de Cecil, ninguém mais, da família, sabia que eu me havia tornado anfíbio.

Uma vez, inesperadamente encontrei papai no mato. Eu estava gazeando a escola. Ele, sem mais nem menos, apanhou uma vara de bom tamanho e deu-me boa e merecida tunda. Noutra oportunidade em que eu estava me deliciando com uma boa gazeta da escola, aproximei-me perigosamente dele. Ele não me viu, graças a Deus, e eu pude esgueirar-me a salvo.

Papai costumava ficar andando prá lá e prá cá na calçada do jardim e, às vezes, murmurava. Estou certo que ele estaria pensando no que fazer para recuperar-se no auto respeito e na consideração dos seus parentes, amigos e, também, da sua família. O seu doloroso dilema era como agir para ganhar, ele próprio, o necessário à manutenção da família. Não era digno e nem razoável que vovô estivesse subsidiando indefinidamente.

Durante um certo tempo tentou ser inventor. Entre outras coisas, inventou um prendedor de jornais para ser pendurado na parede; um limpador de mangas de lampião e um processo para evitar que os condutores de trens se apropriassem das tarifas que arrecadavam diretamente dos passageiros ao longo da linha. Fracassou em todos os seus inventos. Os milhões que tencionava ganhar com eles, viraram água de barrela.

Tentou, então, outros meios: foi caixeiro viajante; trabalhou como operário, numa fábrica de brinquedos em Mechanicsville, Vermont; foi redator de jornais, mas, sempre, malsucedido.
Alguns artigos, que papai escreveu, foram impressos e agradaram bastante mas renderam ninharia. Os editores estavam dispostos a publicá-los sempre, desde que nada tivessem que pagar.

Mesmo em meio das suas tribulações papai conservou o seu senso de humor e o usava frequentemente, tanto para fazer os outros rirem como para consolar-se da própria incapacidade de adaptação à hostilidade do ambiente em que vivia. Quando os jornais publicavam seus longos e bem lançados artigos, sem que tivessem de pagar por eles, ouvi muitas vezes ele dizer, aliviado:
– “Graças a Deus eles não tentam cobrar-me pelo espaço, a título de publicidade”.

Os artigos, que escrevia, cobriam uma larga faixa de interesses: Tinha-se a impressão que ele não estava alheio a nenhum ramo do conhecimento: política, filosofia, religião, geologia e ciência em geral. Embora as suas tendências mais visíveis estivessem voltadas para o humor, ele abordava todos os assuntos, mas num sentido de destruição verdadeiramente iconoclasta. Não sei se aprofundou-se em geologia, nos seus tempos de colégio, mas gostava de escrever sobre esse ramo do conhecimento.

Aos domingos, costumava sair com o Sr. Cal Higgins, a andar pelos arredores. O Sr. Higgins, que mais tarde ficou surdo, gostava de lembrar os longos passeios com meu pai e não se cansava de me contar que, certo dia, papai o desafiou a apostar quem rolaria mais pedras pela encosta da montanha. Apostaram dez mil dólares e papai perdeu a aposta. Como não tinha os dez mil dólares, propôs pagar a aposta com um charuto de cinco centavos. A proposta foi aceita e o passeio continuou.

Numa tarde de verão, quando morávamos apenas vovô, vovó, uma empregadinha e eu, saí, para uma voltinha até a rua principal da cidade a pouco mais de uma quadra da casa, quando vi uma senhora atravessando a rua. Ela conduzia uma criança e carregava uma maleta. Havia, evidentemente, desembarcado na estação da estrada de ferro e vinha em minha direção. Eu jamais vira uma mulher tão bonita e tão bem vestida. Ann Simonds, pela qual eu alimentava profunda admiração, comparada com ela era uma humilhação. A aparição da estranha senhora era tão inusitada que me senti envergonhado da minha aparência humilde e desleixada. Tomei consciência do meu chapéu furado, da minha camisa suja, das minhas calças remendadas e, principalmente, dos meus pés descalços. Fiquei profundamente perturbado ao vê-la aproximar-se, olhando-me atentamente. Empertiguei-me fascinado e sem fala, sob seu olhar. Ela perguntou:

“Você é Paulinho Harris?”

Admirado e chocado por verificar que aquela criatura tão linda sabia o meu nome, eu gaguejei cheio de emoção:

“Sim, senhora”.

Incontinente ela tomou-me em seus braços e beijou-me apaixonadamente, chorando de alegria. As palavras que falou ainda vibram dentro de mim:

“Pois eu sou sua mãe, Paul querido! ” Lembranças vagas de alguém parecido com a mulher, que me abraçou, pareciam tomar forma na minha memória, mas ainda eram confusas. Prefiro atribui-las às referências de vovó, quando, à hora de dormir, rezava “Deus abençoe papai e mamãe para sempre”. Finalmente ali estava mamãe. Ela tomou minha mão nas suas e eu a conduzi, mais minha irmã Nina May, ao único lar que eu conheci, meu lar na Nova Inglaterra.

Não me lembro por quanto tempo mamãe permaneceu em Wallingford. Suponho que por muito pouco. Às vezes, durante a sua estada, ela me dava um ramalhete de lírios. Desde então, essa parece-me a mais pura das flores; um símbolo perfeito do amor de mãe. E a lembrança dela vem sempre associada, de forma indefinível à linda mulher, cuja presença fez-me vibrar tão intensamente naquele dia.

A cronologia dos acontecimentos, na vida da nossa família, evolou-se da minha memória. O principal objeto, na vida dos meus pais, foi reunir os seus três filhos sob um só teto e mantê-los. Uma das tentativas para isso foi feita em Cambridge, Nova York, mas fracassou. Eu ficava só por muito tempo, pois minha mãe tinha lições de piano a dar e, portanto, tinha que ausentar-se. A minha vida parecia sem sentido. A solidão e a monotonia me angustiavam e deprimiam. Para ser verdadeiro, afirmo que havia poucos momentos em que eu me sentia confortado. Eram aqueles em que mamãe tinha tempo de abraçar-me e acariciar-me.

As condições devem ter agravado, a ponto de não haver esperanças para ambos meus pais.

Mamãe foi uma lutadora valorosa, à altura da sua mãe, a professora primária Clarissa Fobes Bryan e da avó Olive Chapelle Briyan.

Numa noite escura, um homem desconhecido estacionou em frente à nossa porta. Era um velho barbudo. Minha mãe se dirigiu a ele chamando-o de Sr. Hitchcock. Quando me deparo com este nome, vem-me à memória a imagem daquele velho barbudo com seu trenó equipado com cobertas de couro de búfalo e a viagem daquela noite. Naquela noite memorável, mamãe, Sr. Hitchcock e eu entramos no trenó, nos cobrimos com as peles de búfalo e deslizamos sobre a neve, ao luar. Eu não sabia para onde íamos até que ouvi mamãe dizer:

“Estou levando este menino para morar com seus avós”. O trenó nos levou a estação da estrada de ferro. A cortina do tempo cobriu a memória dos acontecimentos que se seguiram, mas é provável que minha mãe tenha me confiado aos cuidados do condutor, no trem, para desembarcar em Rutland.

Ali, vovó e vovô me encontraram e, no mesmo trem em que papai, Cecil e eu chegáramos em Wallingford, vencemos os quinze quilômetros que mediavam entre as duas cidades. Naquela noite, dormi na minha boa cama, no lar abençoado de meus avós. Eu estava de volta ao lar da liberdade e da fartura! Acabaram-se os sofrimentos!

De volta a Cambridge minha mãe deveria estar profundamente abatida. Era a segunda vez que tentara realizar o objetivo que, mesmo com sua corajosa ajuda, fracassou por culpa de papai. Há que justificar-se mamãe pelo fato lógico de ser-lhe impossível cuidar da casa e das aulas de piano. Leve-se, ainda, em conta que a sua renda como professora de piano, era insuficiente para manter as empregadas necessárias e as necessidades da família. Ademais, ela não se subordinava a abrir mão das convenções sociais e, por tanto, não sabia viver economicamente. Os seus gastos eram enormes, comparados com a frugalidade e simplicidade da família dos meus avós.

As extravagâncias de papai eram menores que as de mamãe, mas muito mais pessoais. Charutos e despesas afins não podiam ser consideradas necessidades de vida. Ninguém, conhecedor das circunstâncias, poderia afirmar que papai fosse um bom chefe de família. De fato, ele deixava essa honra a vovô, que sempre a susteve com dignidade. Era mais fácil os ponteiros de um relógio girarem ao contrário do que vovó dar aso a uma sua falha, como chefe de família.

Quando, crescendo, adquiri alguma maturidade, vovó e eu costumávamos comentar a infelicidade da família dos meus pais. Um dia vovó disse:

“Sua mãe é muito gastadora, Paul. Certas mulheres são capazes de em uma colher, jogar fora mais do que seus maridos podem recolher com uma pá. Sua mãe é dessas. Lamento dizê-lo. Não se concebe que ela mantivesse uma e, às vezes, duas empregadas, quando seu pai, fazendo tudo o que é capaz, só pode conseguir o suficiente para alimentá-la e mais os filhos”.

A observação de vovó me doeu. Claro que ela via apenas os defeitos de mamãe e esquecia as virtudes. Mas não enxergava as falhas de meu pai, seu próprio filho. Não me contive, pois, e contestei:

“Mamãe, com suas lições de piano jamais deixou que nos faltasse o que comer. Se não fosse ela, nós teríamos morrido de fome”.

“Ah, não! Ela nunca agiu como devia, Paul”, replicou vovó.

“O primeiro dever de uma mulher é ficar cuidando da casa e dos filhos. Aconteça o que acontecer é ali o seu lugar. Se ela atender a casa, tudo o mais entrará nos eixos. A Providência cuida até das viúvas com filhos. O seu avô nunca deixaria que vocês sofressem, se as coisas estivessem em ordem em casa e, mais do que isso, seu pai teria tido sucesso no seu trabalho se tivesse a sustentação de um lar bem organizado. Se ela ficasse em casa, seria muito melhor do que trazer, de fora, algum dinheiro para comprar bugigangas”.

Calei-me. Eu não podia contestar as verdades que vovó acabara de proferir.

O fermento da filosofia de vida dos meus avós estava crescendo! Eu podia sentir e ver que a felicidade que ali reinava, dependia mais da ordem, da mútua compreensão e da bondade do que do gênio, do esforço brutal para guardar as aparências. No entanto, mamãe tinha sido formidavelmente corajosa e em papai, essa virtude falhou. Que prodigiosas virtudes e capacidades mamãe deveria ter, para satisfazer as exigências de vovó!

 

 


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